4 de outubro de 2011 - por: Lucas

Jornal inglês ‘The Observer’ fala sobre o stand up brasileiro.

Audácia dos comediantes brasileiros é tema discutido com entrevistas e detalhes.

Neste domingo os britânicos leram nos seus jornais enquanto tomavam chá e ouviam o Big Ben tocar a história da audácia do Stand Up brasileiro.
Falando sobre Danilo Gentili e outros tantos comediantes, a matéria é bem detalhada, verídica e analítica. Mostra por uma visão estrangeira o que custamos a entender aqui de dentro.
Vale a pena ler.
Se você manja de inglês, leia aqui na íntegra.
Se não, tudo bem. Eu fiz o favor de traduzir pra todo mundo logo abaixo.
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Comediantes brasileiros lideram revolução social contra elites poderosas.
Nova raça de comediaantes aproveitam a onda de popularidade para ir além e desafiar a reputação da nação por deferência.


Por, de São Paulo
Para o jornal The Observer. Domingo, 02 de outubro de 2011.


Numa noite do último outubro, Danilo Gentili subiu ao palco na capital brasileira, Brasília, e entornou suas piada satíricas na mulher que semas depois seria eleita como a primeira presidente mulher do Brasil, Dilma Roussef. Ele fez uma piada sobre o fato de que a guerrilheira Marxista foi torturada durante a repressão de um ditatorial militar de 21 anos do país.

“Votar na Dilma porque ela foi torturada?” ele lançou. “Foda-se. Eu pedi pra ela ser?”

“Sério.” ele continuou, puxando risadas nervosas da platéia lotada. “Um presidente deve ser esperto. Se ela foi pega e torturada é porque ela era uma idiota.” Foi o momento mais afiado de um monólogo de 80 minutos – fazer graça às custas de uma mulher que foi brutalmente torturada pela ditadura. Mas Gentili, 32, altamente controverso mas também comediante muito popular, está deixando um rastro para o stand up na maior nação da América do Sul, é um homem que gosta de viver no limite.

E num país com uma famosa reputação de deferência e respeito pelas celebridades e autoridades, ele e centenas de outros colegas stand upers enchendo bares e clubes pelo Brasil representam um rompimento crescente e influente com o passado.

O Brasil tem um rico histórico de sátiras políticas e humor na literatura, teatro, arte e na televião. Mas nunca antes deleitou de tão vibrante cena do stand up, com artistas que se sentem tão livres para falar o que pensam. Gentili, por exemplo, filho de um reparador de máquinas de escrever da periferia industrial de São Paulo, tem mais de 2 milhões de seguidores no Twitter. Seu sócio e colega comediante Rafinha Bastos foi recentimente nomeado como o Twitter mais influente do mundo, à frente de Barack Obama, Lady Gaga e Oprah Winfrey.

Na semana passada Bastos tinha mais de 3.1 milhão de seguidores. Ano que vem, a ascensão da cena stand up comedy no Brasil será consagrada com a chegada do canal americano Comedy Central. O conteúdo local será liderado por um show apresentado por Gentili. “Eles perceberam que há o público, há o mercado e há comediantes suficiente para sustentar o gênero”, disse ele sobre a chegada do canal ao Brasil.

Menos de 30 anos atrás, sob um regime militar, as tiradas públicas do Gentili aos políticos o levariam a ser preso e exilado. “Ou morto!” diz ele secamente. Mas o Brasil novo e auto-confiante, um dos poderes economicos emergentes mais rápidos do mundo, é um lugar diferente. E uma nova geração está se apaixonando pelos comediantes stand up. “Poderia nunca ter acontecido [durante a ditaduta]“, disse Gentili. “Provavelmente nos dois primeiros minutos do show os militares teriam entrado no teatro e acabado com tudo.”

Em tempos mais recentes, ele acredita, estas piadas tem sido suicídios de carreira num país onde os comediantes tradicionalmente ganham a vida com shows televisivos controlados por uma elite poderosa. “Ainda há resistência de pessoas que acham que certas coisas não podem virar piada”, disse Nigel Goodman, um comediante carioca. “[Mas] hoje nós temos opções de carreira que não envolvem a televisão”.

O jovem de 25 anos abandonou uma carreira em Direito para se dedicar ao stand up e se apresenta frequentemente em cidades como Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Curitiba. “O stand up é um movimento totalmente independente”, disse Gentili, que cita Ricky Gervais e o grupo Monty Python entre seus heróis da comédia.

“Ganhamos dinheiro assim. Se as pessoas entrarem na TV vão ganhar mais e melhor. Mas se não ganharem, foda-se. Isso continuará acontecendo. Assim eles não devem fidelidade a ninguém”. O boom das mídias sociais no Brasil também dá aos artistas stand up do país um certo grau de proteção; políticos podem não gostar de suas piadsa – mas eles irão desafiá-los perigosamente. Muitos traçam as origens do movimento de stand up brasileiro ao bar paulistano Bervely Hills, onde uma legião de jovens comediantes perderam a ‘virgindade’ durante sessões de open mic por volta de 2004.

“É como um curso de pós graduação no humor”, disse o comediante de 29 anos, Robson Nunes, um dos donos. “Pra ficar bom você tem que passar pela platéia do Bervely Hills. Se uma piada não funciona, a platéia é cruel”. E foi no Bervely Hills que Gentili rascunhou o plano de abrir o primeiro clube brasileiro dedicado totalmente ao stand up.

“Desde o primeiro show lá… nós dissemos: ‘Putz, tem que ter um clube de comédia no Brasil”, disse Gentili, que no ano passado realizou seu sonho abrindo o Comedians Comedy Club, um pretensioso bar de 300 lugares no coração de São Paulo, um Soho paulistano, a Rua Augusta.

O boom do stand up não é mais restrito às metrópoles do sudeste como Rio e São Paulo. Recife, Belo Horizonte e Porto Alegre tem suas próprias cenas locais, enquanto a região amazonica também tem produzido artistas talentosos, entre eles Murilo Couto que saiu da cidade ribeira de Belém, no norte. “Nós recebemos comediantes de Recife, Belém e do estado de Roraima [na amazonia], um comediante português, eles vem de todas as partes”, disse Nunes, um afro-descendente que fala de problemas que enfrenta com a sua raça e identidade nos seus shows.

Nem sempre é tudo sobre política. “Cada um tem sua própria linha”, disse Zé Neves, um comediante de 31 anos de Campinas. “Alguns comediantes falam sobre relacionamentos, outros sobre política, outros sobre futebol. Essa é a graça do stand up, é natural”.

Gentili, também, não é somente ligado em falar de políticos corruptos e seus pequenos pecados. Seu próximo show solo e DVD exploram o lado cômico do dia a dia no Brasil.

Mas não espere que seja menos controverso. “Em todo lugar no mundo as pessoas entendem que o papel do comediante é fazer piadas. Um dia entenderão isso no Brasil também, eu espero”, diz ele.